PGR afirma que Banco Master explorou brechas do mercado e uso de ‘laranjas’ para desviar recursos a Vorcaro e familiares
- Adilson Silva

- há 6 dias
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A investigação que apura suspeitas de gestão fraudulenta no Banco Master aponta que a instituição teria se valido de fragilidades do mercado de capitais para realizar operações financeiras destinadas a transferir recursos ao patrimônio pessoal do banqueiro Daniel Vorcaro e de seus familiares.

De acordo com as apurações, o montante envolvido nos supostos desvios chega a R$ 5,7 bilhões.
As conclusões constam de manifestação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, apresentada para fundamentar a segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na última quarta-feira (14). No documento, o PGR afirma que o banco operou por meio de uma complexa estrutura de entidades interligadas para executar a movimentação dos recursos.
Segundo Gonet, há indícios de um “aproveitamento sistemático de vulnerabilidades do mercado de capitais e do sistema de regulação e fiscalização”, especialmente por meio do uso de fundos de investimento e de uma rede de empresas conectadas por vínculos societários, familiares ou funcionais.
Uma das estratégias identificadas pela Polícia Federal envolveu a emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs). Conforme o relatório, o Banco Master captava recursos no mercado por meio desses títulos e os direcionava a Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) nos quais o próprio banco figurava como único cotista. Esses fundos, por sua vez, adquiriam notas comerciais emitidas por empresas consideradas de fachada, ligadas a sócios do banco ou a pessoas próximas ao controlador.
De acordo com a PF, pelo menos R$ 3,5 bilhões foram aplicados pelo Master em fundos dos quais era o único cotista, além de R$ 1,8 bilhão utilizados na compra de notas comerciais de empresas com vínculos diretos ou indiretos com Vorcaro. No total, as autoridades estimam que R$ 5,7 bilhões tenham sido desviados do sistema financeiro para beneficiar o banqueiro e seus familiares.
O rastreamento de algumas dessas operações revelou, por exemplo, a transferência de R$ 9 milhões para Henrique Vorcaro, pai do dono do banco, a partir de um dos fundos investigados.
A apuração também identificou um investimento de R$ 361 milhões em uma pequena clínica médica na região metropolitana de Belo Horizonte. Segundo a PF, a operação apresentava indícios de fraude e possuía ligações societárias que levaram à irmã de Vorcaro, Natália Vorcaro, razão pela qual ambos também se tornaram alvos da operação.
Ainda segundo os investigadores, a empresa não apresentava garantias, tinha capital social zerado e faturamento anual declarado de apenas R$ 54 mil. A presidente da clínica, Valdenice Pantaleão, não possuía patrimônio compatível com a movimentação financeira e recebeu auxílio emergencial em 2020 e 2021, o que levou a PF a considerá-la possível “laranja” no esquema.
Outro ponto destacado no inquérito envolve a atuação da gestora Reag. Com base em informações do Banco Central, a PF aponta que a empresa teria atuado em conjunto com o Banco Master para estruturar fundos e realizar operações com o objetivo de desviar recursos. Foi identificado um fluxo financeiro no qual o banco desembolsou R$ 1,45 bilhão, valor que retornou em grande parte à própria instituição por meio da compra de CDBs do Master por fundos administrados pela Reag, em uma operação considerada circular e destinada a inflar artificialmente os ativos.
O relatório também menciona o empresário Nelson Tanure como suposto “sócio oculto” do Banco Master e beneficiário final da empresa Lormont Participações, cujos papéis representariam a maior parte da carteira de um dos fundos investigados. A PGR solicitou o bloqueio de bens de Tanure no mesmo patamar requerido para Daniel Vorcaro.
Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que tomou conhecimento das medidas de busca e apreensão e reiterou que o banqueiro tem colaborado integralmente com as autoridades. Segundo os advogados, todas as determinações judiciais estão sendo cumpridas com transparência, e a defesa confia no devido processo legal para o esclarecimento dos fatos.
Já a defesa de Nelson Tanure declarou que o empresário não possui relação societária com o Banco Master, do qual teria sido apenas cliente, e que jamais respondeu a processo criminal por supostas irregularidades no mercado financeiro. Os advogados informaram ainda que a única medida aplicada a Tanure foi a apreensão de seu telefone celular e afirmaram que as investigações irão demonstrar a inexistência de qualquer prática ilícita.







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