Réu pelos atos de 8 de Janeiro consegue novo passaporte, deixa o México e chega à Europa apesar de ordens judiciais
- Adilson Silva

- há 2 dias
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Um dos réus envolvidos nos ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 conseguiu escapar das autoridades brasileiras mesmo com mandado de prisão em aberto e restrições judiciais expressas.

O investigado obteve um novo passaporte brasileiro no exterior e deixou o continente americano rumo à Europa, onde solicitou proteção internacional ao governo espanhol.
A fuga foi possível após falhas na comunicação e no cruzamento de dados entre sistemas da Polícia Federal e do Ministério das Relações Exteriores, segundo apuração do UOL com fontes ligadas ao caso. O Itamaraty reconheceu erro no procedimento e informou que revisa protocolos para evitar novas ocorrências semelhantes.
O foragido é Apolo Carvalho da Silva, de 28 anos, arte-finalista denunciado por incitação ao crime e associação criminosa no contexto dos atos golpistas. Mesmo com determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) para apreensão e cancelamento de seus documentos de viagem, ele conseguiu emitir um novo passaporte brasileiro em setembro de 2025, no México.
À época, Apolo já tinha rompido a tornozeleira eletrônica, deixado o Brasil sem autorização judicial e era alvo de mandado de prisão expedido em setembro de 2024. Ainda assim, ao procurar o consulado brasileiro na Cidade do México, apresentou boletim de ocorrência alegando perda do passaporte e afirmou estar no país como turista.
Munido de documentos básicos — como CNH, certidão de nascimento, título eleitoral digital e comprovante de regularização eleitoral —, ele solicitou a emissão do novo passaporte, informando um endereço falso. O documento foi concedido como substituição a um passaporte supostamente extraviado e assinado pelo vice-cônsul brasileiro no México.
O Itamaraty admitiu que a condição de foragido não foi identificada no momento da solicitação. Segundo o ministério, o passaporte só foi cancelado no fim de janeiro deste ano, após questionamentos da imprensa. A pasta informou ainda que estuda ampliar a integração dos sistemas com a Polícia Federal para reforçar a segurança na emissão de documentos.
Com o novo passaporte, Apolo embarcou para a Espanha em dezembro e, já em território europeu, solicitou proteção internacional às autoridades espanholas. Ele atualmente reside em Madri e deverá passar por audiência inicial do Ministério do Interior da Espanha em abril, quando seu pedido será analisado.
O advogado do réu, Fábio Pagnozzi — que também atua na defesa da ex-deputada Carla Zambelli — afirma que o pedido se baseia em alegações de perseguição política. Segundo ele, a Espanha tem adotado postura receptiva a investigados ligados aos atos de 8 de Janeiro, citando casos anteriores em que o Brasil não conseguiu a extradição.
Apolo já havia deixado o país em outras duas ocasiões. Em 2024, fugiu inicialmente para a Argentina e, depois, percorreu países como Peru e Colômbia até se estabelecer no México, onde trabalhou como mecânico no estado de Querétaro.
Imagens analisadas pela Polícia Federal mostram que ele esteve presente na invasão às sedes dos Três Poderes, registrando vídeos em que celebra a ocupação dos prédios públicos. Apesar disso, acabou denunciado apenas por crimes de menor gravidade e recusou um acordo com o Ministério Público que poderia encerrar o processo mediante confissão, pagamento de multa e prestação de serviços à comunidade.
A defesa sustenta que as acusações são genéricas e que o réu teme que, caso retorne ao Brasil, novas provas sejam usadas para agravar a denúncia. Enquanto isso, o episódio expôs fragilidades no controle estatal sobre a emissão de passaportes no exterior e reacendeu o debate sobre cooperação entre órgãos brasileiros em casos envolvendo foragidos da Justiça.







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