Mercosul decide criar comissão conjunta para enfrentar o crime organizado
- Adilson Silva

- 7 de jan.
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Os países do Mercosul aprovaram a criação de uma comissão permanente destinada a coordenar ações de combate ao crime organizado transnacional no bloco sul-americano. A decisão foi tomada durante reunião realizada em Foz do Iguaçu (PR) e reflete a preocupação crescente com a expansão de facções criminosas na região.

A iniciativa também ocorre em um contexto de pressão internacional, especialmente por parte dos Estados Unidos, que intensificaram críticas e ações relacionadas ao narcotráfico na América do Sul, com foco recente na Venezuela.
Durante a cúpula de chefes de Estado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou que o Mercosul demonstrou disposição política para enfrentar o problema de forma integrada. Segundo ele, a nova comissão terá como missão implementar uma estratégia comum contra o crime organizado e contará com um grupo de trabalho específico voltado à recuperação de ativos, com o objetivo de enfraquecer financeiramente organizações criminosas.
O encontro reuniu os presidentes da Argentina, Javier Milei; do Paraguai, Santiago Peña; e do Uruguai, Yamandú Orsi. A Bolívia foi representada pelo chanceler Fernando Aramayo Carrasco, já que o presidente recém-empossado, Rodrigo Paz, não compareceu. Também participou da reunião o presidente do Panamá, José Raúl Mulino, país que se tornou membro associado do bloco no fim de 2024.
A criação da comissão foi definida previamente em reunião do Grupo Mercado Comum, com a participação de Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Na ocasião, também foi firmado um acordo de cooperação para reforçar o combate ao tráfico de pessoas.
A proposta prevê a articulação entre diferentes órgãos nacionais, como ministérios da Justiça e da Segurança Pública, Ministérios Públicos e forças policiais, visando uma atuação integrada e mais eficaz.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, avaliou a medida como um dos principais avanços da presidência brasileira no Mercosul. Para ele, a estratégia conjunta servirá de referência para ações de prevenção, investigação e repressão ao crime organizado, com base no compartilhamento de inteligência entre os países.
Segundo o chanceler, a comissão reunirá, pela primeira vez, representantes de todas as instituições responsáveis pelo enfrentamento ao crime, incluindo especialistas em lavagem de dinheiro e recuperação de ativos. A expectativa é de que a iniciativa resulte em melhorias concretas na segurança pública da região.
O tema da atuação de facções em áreas de fronteira já vinha sendo discutido desde novembro, quando autoridades do bloco se reuniram no Ministério da Justiça, em Brasília. De acordo com Lula, o Brasil pretende, em articulação com o Uruguai, propor uma reunião ampliada de ministros da Justiça e da Segurança Pública do Consenso de Brasília para aprofundar a cooperação regional.
A pauta ganhou ainda mais destaque após a intensificação da presença militar dos Estados Unidos na costa venezuelana, sob a justificativa de combate a cartéis de drogas. No início de dezembro, Lula conversou com o presidente norte-americano, Donald Trump, e defendeu a cooperação bilateral no enfrentamento ao crime organizado internacional.
Segundo o Palácio do Planalto, o presidente brasileiro ressaltou operações recentes conduzidas pelo governo federal para estrangular financeiramente organizações criminosas e apontou conexões que atuam a partir do exterior. Trump, conforme a nota oficial, demonstrou interesse em colaborar com o Brasil nessa agenda.
Autoridades brasileiras avaliam que a Bolívia tem se tornado um ponto estratégico para grandes narcotraficantes da América do Sul. O Primeiro Comando da Capital (PCC), que já mantinha presença no país, estaria ampliando suas atividades e buscando consolidar domínio territorial. O país é considerado uma rota relevante por ser um dos principais pontos de entrada da pasta-base de cocaína produzida no Peru.
A discussão regional também se conecta ao cenário interno brasileiro. Pesquisa recente do Datafolha aponta que 16% dos brasileiros consideram a segurança pública o principal problema do país. Em 2026, o Congresso deve analisar propostas como a PEC da Segurança e o projeto de lei Antifacção.
Além do tema da criminalidade, Lula abordou a violência contra as mulheres durante seu discurso na cúpula. O presidente propôs que o Mercosul construa um pacto regional para combater o feminicídio e ampliar ações de proteção às mulheres, sugerindo que a iniciativa seja desenvolvida sob a presidência paraguaia do bloco.







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