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Após mais de duas décadas de negociações, Mercosul e União Europeia firmam acordo de livre comércio

Depois de 26 anos de tratativas, o Mercosul e a União Europeia assinaram, neste sábado (17), o acordo de livre comércio entre os dois blocos. A cerimônia ocorreu em Assunção, capital do Paraguai, e marcou a conclusão de um processo iniciado em 1999, considerado um dos mais longos e complexos da história recente do comércio internacional.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

O ato foi realizado em um dos principais teatros da cidade, em um espaço cercado por jardins projetados por Roberto Burle Marx e integrado a um conjunto arquitetônico com influências brasileira e argentina. A assinatura aconteceu por volta do meio-dia e reuniu chefes de Estado e autoridades dos países envolvidos.

A formalização do acordo ocorre após a aprovação do texto pela Comissão Europeia no início do mês e em meio a divergências internas dentro da União Europeia. A iniciativa é vista como um movimento estratégico para ampliar a autonomia dos dois blocos em um cenário global cada vez mais influenciado por China e Estados Unidos.

Para os países do Mercosul, o acordo representa a possibilidade de acesso ampliado e privilegiado ao mercado europeu. Já a União Europeia busca expandir sua presença em áreas nas quais possui maior competitividade, como tecnologia, indústria e setor farmacêutico.

Além do presidente paraguaio, Santiago Peña, anfitrião do evento, participaram da cerimônia o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, e o presidente da Argentina, Javier Milei. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que teve papel relevante nas negociações, não esteve presente, sendo representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

Em seu discurso, Peña destacou o simbolismo da assinatura no Paraguai e classificou o momento como histórico. Ele ressaltou que o acordo é o maior compromisso comercial já negociado pelo Mercosul e afirmou que o entendimento envia uma mensagem positiva ao comércio internacional em um contexto global marcado por tensões. O presidente paraguaio também agradeceu publicamente a Lula pelo empenho nas negociações.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou sentir-se honrada por participar da assinatura em uma cidade que simboliza a integração regional. Segundo ela, o acordo cria a maior área de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 700 milhões de pessoas e representando quase 20% do PIB global. Para a dirigente europeia, o tratado reforça a opção pelo comércio justo e por benefícios concretos para as populações e os setores produtivos.

Na véspera da assinatura, Lula se reuniu com von der Leyen no Rio de Janeiro, onde ambos celebraram o acordo como uma vitória do multilateralismo e do respeito às regras internacionais estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio.

Durante a cerimônia, o chanceler Mauro Vieira afirmou que o acordo estabelece as bases de uma parceria duradoura entre os blocos, orientada ao desenvolvimento sustentável, à inclusão social e à segurança econômica. Ele destacou ainda que o texto contempla compromissos com democracia, Estado de Direito e proteção ambiental, além de ressaltar a importância da correta implementação do que foi pactuado.

O presidente argentino, Javier Milei, classificou a data como de grande relevância política e econômica e afirmou que a Argentina continuará defendendo a liberdade comercial. Ele alertou, no entanto, que mecanismos como cotas ou exceções podem comprometer os objetivos do acordo durante a fase de implementação.

Já o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, enfatizou que o entendimento fortalece o diálogo baseado na democracia, no respeito aos direitos humanos e na construção de consensos como caminho para melhorar a qualidade de vida da população.

O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, também participou do evento e destacou a intenção de aprofundar a integração do país ao Mercosul, além de avançar em mudanças regulatórias que possam estimular investimentos e ampliar a cooperação regional.

Especialistas em comércio exterior avaliam que o acordo pode contribuir para superar a atual crise de identidade do Mercosul, marcada por divergências entre seus membros. A assinatura é vista como um passo importante para recuperar a coesão política do bloco sul-americano, especialmente em um contexto internacional impactado por medidas protecionistas adotadas por grandes potências.

O tratado prevê a redução de tarifas em mais de 90% do comércio bilateral. A expectativa é de aumento das exportações europeias de automóveis, máquinas e bebidas, enquanto produtos sul-americanos, como carne e soja, terão maior acesso ao mercado europeu. Ainda assim, o acordo enfrenta resistência de agricultores da União Europeia, preocupados com a concorrência externa, o que levou à inclusão de cláusulas de proteção para setores sensíveis, como carne e arroz.

Após a assinatura, o texto ainda precisará ser aprovado pelos parlamentos dos países do Mercosul e pelo Parlamento Europeu, onde a ratificação não é considerada garantida, especialmente diante da oposição liderada pela França.

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