PT busca virar crise venezuelana contra a direita e expõe divergências internas
- Adilson Silva

- há 4 horas
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A relação do PT com a Venezuela, tema recorrente no embate político brasileiro há mais de duas décadas, voltou ao centro do debate após a intervenção militar dos Estados Unidos no país vizinho e a deposição de Nicolás Maduro.

Tradicionalmente usada pela direita como símbolo de alerta contra governos petistas, a crise agora é explorada por lideranças do PT como argumento para acusar adversários de alinhamento a interesses estrangeiros. O movimento, porém, reabre fissuras históricas dentro do próprio partido.
Parlamentares governistas afirmam que a estratégia eleitoral será associar a direita brasileira a uma postura considerada “entreguista”, ao defender ou relativizar ações externas na América do Sul. O discurso gira em torno da defesa da soberania nacional e da estabilidade regional. Ainda assim, a Venezuela continua sendo um tema sensível para o PT, por reacender divergências internas sobre democracia, autoritarismo e a caracterização do regime chavista.
“O discurso de que o Brasil vai virar a Venezuela nunca colou. O que pode mobilizar o eleitor agora é a defesa da paz na América do Sul”, afirma o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), líder do partido na Câmara. Para ele, a oposição estaria normalizando intervenções estrangeiras e atacando princípios democráticos.
Lindbergh se refere a conteúdos divulgados por parlamentares bolsonaristas nas redes sociais após a captura de Maduro. Um dos casos foi uma montagem compartilhada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que mostrava o presidente Lula sendo preso por militares americanos. A postagem levou congressistas de esquerda a acionarem a Procuradoria-Geral da República.
Antes disso, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje principal nome da direita na disputa presidencial, já havia sido alvo de críticas ao sugerir, em rede social, que os Estados Unidos realizassem uma operação no Rio de Janeiro contra o narcotráfico, comentário interpretado por adversários como defesa de ingerência externa.
Segundo investigações da Polícia Federal, apelos internacionais também fizeram parte da estratégia bolsonarista diante do avanço das apurações sobre a tentativa de golpe. A PF aponta que Eduardo Bolsonaro teria pressionado autoridades do governo Donald Trump a adotar sanções contra o Brasil, com o objetivo de constranger o Judiciário durante o processo que culminou na condenação de Jair Bolsonaro.
Diante desse cenário, o Planalto passou a incorporar com mais força o discurso da soberania nacional. “A direita repete o erro das tarifas: acredita que tem influência com Trump, quando o interesse dele é apenas imperialista”, afirma Lindbergh.
Em resposta à crise, PT, PSOL e MST criaram uma frente de solidariedade ao povo venezuelano. O presidente Lula e bancadas da esquerda divulgaram notas criticando a intervenção dos EUA. Já governadores alinhados à direita, como Tarcísio de Freitas (Republicanos), celebraram a deposição de Maduro. O governador paulista divulgou vídeo associando imagens de Lula com o ex-presidente venezuelano à possibilidade de derrota da esquerda nas eleições, reacendendo a comparação entre PT e chavismo.
O paralelo encontra respaldo na histórica resistência do PT em classificar o regime venezuelano como ditadura. Relatórios internacionais, como os da Human Rights Watch, já apontaram violações de direitos humanos, censura à imprensa e concentração de poder. Em 2024, a reeleição de Maduro não foi reconhecida por organismos como a OEA e o Carter Center. Lula não validou o processo eleitoral, mas afirmou à época que a Venezuela não era uma ditadura, e sim um “regime desagradável”. O partido, por sua vez, sustentou que o pleito foi democrático — posição que gerou divergências internas.
Essas diferenças reapareceram com a crise atual. O deputado Reimont (PT-RJ), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, classifica o governo venezuelano como ditatorial e afirma que a solidariedade da esquerda não se confunde com apoio a Maduro. “Defendemos que os venezuelanos resolvam seus próprios problemas, sem intervenção externa”, diz o parlamentar, integrante da corrente majoritária do partido.
Ele reconhece que a direita deve explorar eleitoralmente o tema, associando o PT a regimes autoritários, mas acredita que agora há espaço para reação. “Eles usam o medo porque não têm propostas. Nossa resposta é mostrar a contradição entre o discurso nacionalista e a submissão aos Estados Unidos”, afirma.
Já setores mais à esquerda do partido discordam dessa leitura. Para Valter Pomar, dirigente da Fundação Perseu Abramo e ligado à corrente Articulação de Esquerda, a insistência em chamar Maduro de ditador serve para legitimar intervenções estrangeiras. “O problema central não é rotular o chavismo, mas decidir se a América Latina será subordinada ou soberana”, afirma.
Pomar defende o fortalecimento das alianças regionais como forma de enfrentar a influência norte-americana e sustenta que o Brasil deve manter proximidade com a Venezuela.
A relação entre o PT e o chavismo remonta ao início dos anos 2000, quando Lula e Hugo Chávez integraram a chamada “onda rosa” latino-americana. Ambos compartilharam projetos de integração regional e cooperação política. Com o passar do tempo, crises econômicas, queda no preço das commodities e o fechamento progressivo do regime venezuelano enfraqueceram essa aproximação.
Para a cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, a Venezuela ocupa hoje um papel simbólico no debate político brasileiro. “Ela funciona como um marcador de radicalidade, um catalisador de emoções ligadas à ideia de comunismo”, afirma. Segundo a professora, o país vizinho passou a ocupar, no imaginário social, o espaço que Cuba teve durante a Guerra Fria.
Nesse contexto, mais do que um aliado ou adversário concreto, a Venezuela segue sendo um elemento central na disputa de narrativas entre esquerda e direita no Brasil.







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