Estudo aponta aumento das apostas esportivas durante a Copa; quase 35% dos brasileiros participaram
- Adilson Silva

- 1 de jul.
- 3 min de leitura
Um levantamento da fintech Klavi indica que a participação dos brasileiros em apostas esportivas cresceu de forma significativa durante a Copa do Mundo. Segundo o estudo, 34,8% da população realizaram depósitos em plataformas de apostas desde o início da competição, percentual que representa mais que o triplo dos 11% registrados em maio.
A pesquisa foi elaborada com base em dados do Open Finance, sistema de compartilhamento de informações financeiras do Banco Central, e utilizou uma amostra de aproximadamente 1,2 milhão de pessoas.

Além do aumento no número de apostadores, o valor médio destinado às plataformas também apresentou crescimento. No domingo (28), por exemplo, cada usuário depositou, em média, R$ 272, acima da média de R$ 188 observada antes do início do Mundial.
De acordo com a Klavi, o volume diário de apostas permaneceu superior ao registrado antes da competição. O maior pico ocorreu em 14 de junho, um dia após a partida da Seleção Brasileira contra o Marrocos, quando a média por apostador chegou a R$ 524. O levantamento considera apenas transferências realizadas para empresas autorizadas a operar no país, sem incluir apostas em plataformas ilegais.
Os dados também mostram que mais de 60% dos depósitos são feitos após as 18h, período que concentra a maior parte dos jogos da Copa do Mundo. Apenas cerca de 10% das transações ocorreram durante a manhã, faixa horária em que não há partidas do torneio.
Outro ponto destacado pela pesquisa é a concentração dos gastos em um grupo reduzido de usuários. Os chamados "high rollers", que correspondem aos 10% dos apostadores com maior volume de depósitos, movimentaram valores aproximadamente 20 vezes superiores aos registrados pelos demais participantes.
Especialistas em saúde mental alertam para o aumento dos comportamentos de risco no período noturno. Segundo o coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Ambulatório de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Rodrigo Machado, é nesse horário que pessoas com transtornos relacionados ao jogo costumam apresentar menor controle sobre o comportamento.
Ainda de acordo com o especialista, a ausência da supervisão de familiares e o receio de expor o problema são fatores que contribuem para o agravamento da compulsão e dificultam a busca por tratamento.
O avanço das apostas esportivas também reacendeu o debate sobre publicidade do setor. Em diversos países existem limitações quanto aos horários e formatos dos anúncios. A Austrália proíbe propagandas durante transmissões esportivas ao vivo, enquanto o Reino Unido permite a veiculação apenas após as 21h. Em Portugal, os anúncios só podem ser exibidos depois das 22h30, e Holanda e Bélgica restringem o uso de personalidades públicas nas campanhas.
No Brasil, a regulamentação prevê exigências como a inclusão de mensagens de conscientização sobre os riscos das apostas. A fiscalização é realizada pelo Ministério da Fazenda, que pode aplicar multas de até R$ 2 bilhões em caso de descumprimento das normas.
Durante a Copa do Mundo, a transmissão dos jogos pela CazéTV passou a ser investigada pelo Ministério da Justiça por suspeitas de práticas abusivas relacionadas à divulgação de apostas esportivas. Entre os pontos analisados estão ações promocionais e promessas de prêmios elevados para atrair novos usuários.
Em nota, a emissora informou que realizou mudanças na forma de exibição das marcas de apostas para atender às orientações do governo federal e do Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (Conar). A empresa afirmou ainda que o mercado brasileiro de apostas passa por um processo de consolidação regulatória.
O Ministério da Justiça também acompanha ações publicitárias veiculadas pela Globo e pelo SBT durante as transmissões da Copa. As emissoras afirmam atuar em conformidade com a legislação vigente.
Representantes do setor defendem que as regras atuais já são rigorosas. Por outro lado, entidades ligadas à saúde pública e aos direitos digitais demonstram preocupação de que algumas empresas considerem financeiramente vantajoso descumprir normas, diante da elevada rentabilidade do mercado e da possibilidade de aplicação de penalidades mais brandas para infratores sem histórico de reincidência.








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