Diplomatas avaliam que relações entre Brasil e EUA atravessam momento mais delicado em dois séculos
- Adilson Silva

- há 2 minutos
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Depoimentos de ex-embaixadores apontam falta de diálogo entre os governos de Lula e Trump e alertam para riscos à política externa brasileira
A relação entre Brasil e Estados Unidos vive o período mais delicado de sua história, segundo avaliação de diplomatas que participaram do projeto Memórias da Diplomacia Brasileira, iniciativa desenvolvida pelo Museu da Pessoa em parceria com a Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB). Os depoimentos destacam o aumento das tensões entre os governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente norte-americano Donald Trump.

Na avaliação dos ex-embaixadores, a combinação entre a política externa adotada pela atual administração dos Estados Unidos, marcada pelo unilateralismo, e posicionamentos do governo brasileiro contribuiu para um cenário de distanciamento sem precedentes entre os dois países.
O ex-embaixador Rubens Ricupero classificou o momento como o mais grave dos mais de 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. Segundo ele, diferentemente de outros períodos de tensão, o atual contexto é caracterizado por manifestações públicas de apoio de Trump ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o que, em sua visão, pode representar uma tentativa de influência sobre o processo eleitoral brasileiro.
Ricupero lembrou ainda que, durante sua atuação em Washington, enfrentou dificuldades para melhorar a imagem do Brasil em meio à crise política e econômica do início dos anos 1990, mas afirmou que o cenário atual é ainda mais preocupante.
Os depoimentos também fazem comparações com outros episódios marcantes da história diplomática brasileira, como o período que antecedeu o golpe militar de 1964. Ricupero recordou a visita do então procurador-geral dos Estados Unidos, Robert Kennedy, ao presidente João Goulart, episódio que, segundo documentos divulgados décadas depois, ocorreu em meio ao agravamento das tensões políticas entre os dois países.
Outro diplomata ouvido pelo projeto, Paulo Sérgio Traballi Bozzi, defendeu cautela na condução da política externa brasileira diante do peso econômico, militar e geopolítico dos Estados Unidos. Para ele, manter a autonomia diplomática não significa ignorar a capacidade de influência norte-americana no cenário internacional.
A embaixadora Débora Vainer Barenboim-Salej também avaliou que decisões recentes do governo brasileiro contribuíram para o desgaste nas relações bilaterais. Entre os fatores citados, ela mencionou declarações de apoio do presidente Lula à então candidata democrata Kamala Harris durante a eleição presidencial norte-americana, atitude que, em sua avaliação, contrariou a tradição de neutralidade da diplomacia brasileira.
Os depoimentos resgatam ainda episódios históricos, como a Guerra das Malvinas, em 1982. O ex-embaixador Sérgio Eduardo Moreira Lima relembrou que a decisão dos Estados Unidos de apoiar o Reino Unido, em vez dos países latino-americanos previstos pelo Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), abalou a confiança na liderança norte-americana na região.
Outro ponto destacado pelos diplomatas é a dificuldade atual de interlocução com o governo dos Estados Unidos. O ex-cônsul-geral em Boston, Mário Vilalva, afirmou que o acesso às autoridades norte-americanas sempre foi essencial para o trabalho diplomático e que esse diálogo se tornou mais restrito durante a gestão Trump.
Os relatos também abordam momentos de divergência entre os dois países em temas como os programas nuclear e aeroespacial brasileiros, além das negociações comerciais iniciadas após o Plano Real, quando o interesse internacional pelo Brasil aumentou significativamente.
Para os diplomatas entrevistados, o atual cenário internacional é marcado por mudanças profundas na ordem global, com a ascensão da China, o fortalecimento de disputas entre grandes potências e novos desafios para países de influência intermediária, como o Brasil. Nesse contexto, eles defendem que a política externa brasileira busque preservar sua autonomia, fortalecer o diálogo e evitar o aprofundamento das tensões diplomáticas.








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