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PT tenta explorar crise venezuelana contra a direita e expõe divergências internas

A crise na Venezuela voltou a ocupar papel central no debate político brasileiro e reacendeu tensões dentro do PT. Após a intervenção militar dos Estados Unidos no país vizinho e a queda de Nicolás Maduro, dirigentes petistas passaram a usar o episódio como instrumento de crítica à direita, ao mesmo tempo em que lidam com antigas divisões internas sobre o caráter do regime chavista.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo

Há mais de 20 anos, adversários do PT recorrem ao argumento de que o Brasil poderia “virar uma Venezuela”, associando o partido à proximidade histórica com o chavismo. Com a nova conjuntura internacional, a direita tenta reavivar esse discurso, enquanto petistas afirmam que o tema perdeu força eleitoral.

Aliados do governo dizem que a estratégia agora é inverter o jogo, apresentando o bolsonarismo como defensor de intervenções estrangeiras e contrário à soberania nacional. Ainda assim, o assunto segue sensível dentro do partido, especialmente por tocar em divergências sobre democracia e autoritarismo no país vizinho.

Para o líder do PT na Câmara, deputado Lindbergh Farias (RJ), o discurso do medo não encontra mais eco no eleitorado. Segundo ele, a pauta capaz de mobilizar votos é a defesa da estabilidade regional e da paz na América do Sul. O parlamentar cita publicações de políticos da direita que, na sua avaliação, sinalizam apoio a ações externas no Brasil.

Após a circulação de uma montagem nas redes sociais mostrando o presidente Lula sendo preso por militares norte-americanos, atribuída ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), parlamentares de esquerda acionaram a Procuradoria-Geral da República. Episódios semelhantes, como publicações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sugerindo operações estrangeiras no país, também são apontados por petistas como exemplos de postura “entreguista”.

Com o avanço das investigações sobre a tentativa de golpe e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, integrantes do governo afirmam que setores da direita passaram a recorrer com mais frequência à política externa. Segundo a Polícia Federal, Eduardo Bolsonaro teria buscado apoio do governo Donald Trump para pressionar instituições brasileiras, numa tentativa de interferir no Judiciário.

Nesse contexto, o Planalto incorporou o discurso de defesa da soberania nacional, especialmente após a reversão de medidas tarifárias anunciadas pelos Estados Unidos. Para Lindbergh, a direita repete o erro de apostar em alinhamento automático com Washington, ignorando os interesses brasileiros.

Diante da instabilidade venezuelana, PT, PSOL e MST lançaram uma frente de solidariedade à população do país. O presidente Lula e bancadas governistas divulgaram notas criticando a intervenção norte-americana. Em sentido oposto, governadores alinhados à direita, como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), celebraram a ação e retomaram comparações entre o PT e o chavismo como estratégia eleitoral.

A recusa histórica do PT em classificar o regime venezuelano como ditadura volta a gerar desgaste. Relatórios de organismos internacionais, como a Human Rights Watch, apontam há anos concentração de poder, censura e violações de direitos humanos no país. A eleição de 2024 na Venezuela não foi reconhecida por observadores internacionais, embora o PT tenha defendido sua legitimidade. Dentro do partido, porém, há posições divergentes.

O deputado Reimont (PT-RJ), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, afirma que a Venezuela vive uma ditadura, mas destaca que a posição da esquerda brasileira é de solidariedade à população, não de apoio ao governo local. Ele reconhece que o tema será explorado eleitoralmente pela direita, mas avalia que o PT agora dispõe de argumentos para reagir.

Já setores mais à esquerda do partido rejeitam a classificação do regime chavista como ditatorial. O historiador Valter Pomar, ligado à corrente Articulação de Esquerda, sustenta que a comparação feita pela direita revela disposição para aceitar intervenções externas na América Latina. Para ele, o debate central não é o chavismo, mas a autonomia regional frente aos Estados Unidos.

Pomar defende a reaproximação do Brasil com a Venezuela como parte de um projeto de integração latino-americana. Segundo ele, alianças regionais são fundamentais diante do avanço de políticas consideradas imperialistas.

A relação entre Lula e Hugo Chávez marcou o início dos anos 2000, quando governos de esquerda avançaram na região. Com o tempo, crises econômicas, queda no preço das commodities e o endurecimento do regime venezuelano enfraqueceram esse projeto comum.

Para a cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, a Venezuela ocupa hoje um papel simbólico semelhante ao de Cuba durante a Guerra Fria. O país funciona como um elemento mobilizador de paixões políticas, mais do que como referência concreta de projeto de governo.

Segundo ela, o tema serve como marcador de radicalização no debate público brasileiro, sendo usado tanto para acusar quanto para defender modelos políticos, independentemente da complexidade da realidade venezuelana.

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