Pesquisador afirma que PCC e CV representam ameaça maior à soberania brasileira do que influência dos EUA
- Adilson Silva

- 1 de jun.
- 3 min de leitura
O especialista em terrorismo e segurança pública Christian Vianna avaliou que as facções criminosas PCC e Comando Vermelho representam hoje uma ameaça mais concreta à soberania do Brasil do que eventuais ações dos Estados Unidos. A declaração foi dada em entrevista à Folha de S.Paulo após a decisão do governo norte-americano de classificar os dois grupos como organizações terroristas.

Com passagem de 25 anos pela Polícia Federal e atuação em áreas ligadas à inteligência, combate ao crime organizado e antiterrorismo, Vianna argumenta que a influência das facções vai além da criminalidade tradicional. Segundo ele, quando esses grupos passam a controlar territórios onde a presença do Estado é limitada, acabam exercendo funções paralelas de poder e enfraquecendo a autoridade estatal.
Para o pesquisador, a medida adotada pelos Estados Unidos tem caráter predominantemente político, mas pode gerar consequências práticas importantes. Entre os possíveis benefícios, ele destaca o aumento da cooperação internacional e o fortalecimento de ações voltadas ao rastreamento e bloqueio de recursos financeiros utilizados pelas organizações criminosas em diversos países.
Cooperação internacional pode ganhar força
Na avaliação de Vianna, a nova classificação abre espaço para uma atuação mais intensa das autoridades norte-americanas no combate às redes financeiras ligadas ao PCC e ao Comando Vermelho. Ele observa que as facções já operam além das fronteiras brasileiras, mantendo conexões com grupos criminosos internacionais e estruturas de lavagem de dinheiro espalhadas por diferentes regiões do mundo.
O especialista ressalta que a principal contribuição dos Estados Unidos pode ocorrer justamente na identificação e interrupção desses fluxos financeiros, dificultando a movimentação de recursos utilizados pelas organizações.
Debate vai além da classificação como terrorismo
Apesar da repercussão da decisão norte-americana, Vianna considera que a discussão central não deve se limitar ao enquadramento das facções como grupos terroristas. Para ele, o desafio está em reconhecer a dimensão do problema e construir uma estratégia nacional integrada para enfrentá-lo.
Segundo o pesquisador, as facções criminosas já possuem presença em grande parte do território brasileiro e contam com estruturas complexas de financiamento, articulação e influência. Diante desse cenário, ele defende uma atuação coordenada entre órgãos de segurança, sistema de Justiça, inteligência, instituições financeiras e demais setores do Estado.
Risco de impactos econômicos
Outro ponto destacado por Vianna é a possibilidade de reflexos para empresas e instituições financeiras que, mesmo sem conhecimento, possam ter sido utilizadas por integrantes das facções em operações de lavagem de dinheiro.
Com a nova classificação, mecanismos de bloqueio de ativos e monitoramento financeiro poderão ser ampliados no exterior, especialmente em operações realizadas em dólar. Isso exigirá maior rigor nos processos de controle e identificação de clientes por parte de bancos e empresas que mantêm relações comerciais internacionais.
Intervenção militar é considerada improvável
Embora a decisão dos Estados Unidos tenha gerado preocupações em alguns setores sobre possíveis interferências externas, o especialista considera remota a hipótese de ações militares americanas em território brasileiro.
Para Vianna, a relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos permanece sólida e a tendência é que a cooperação ocorra principalmente por meio da troca de informações, inteligência e investigações conjuntas, sem qualquer atuação operacional direta no país.
Ao final, o pesquisador reforçou que o enfrentamento ao PCC e ao Comando Vermelho exige planejamento de longo prazo e participação de diferentes áreas do poder público. Na visão dele, medidas isoladas ou mudanças de classificação jurídica não serão suficientes para conter organizações que já possuem alcance nacional e conexões internacionais.







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