Governo brasileiro vê riscos em proposta de Conselho de Paz e avalia rejeitar convite feito por Trump
- Adilson Silva

- 23 de jan.
- 2 min de leitura
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) analisa com cautela a proposta apresentada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para a criação de um Conselho de Paz internacional.

Avaliações internas indicam que o Brasil tende a recusar o convite para integrar o grupo, diante de pontos considerados sensíveis e incompatíveis com a posição diplomática brasileira.
Entre as principais preocupações está a ausência de referência direta ao conflito na Faixa de Gaza, apesar de o conselho ter sido anunciado sob o argumento de acompanhar crises internacionais. O texto apresentado menciona apenas regiões “afetadas ou ameaçadas por conflitos”, sem delimitar áreas específicas de atuação. Para interlocutores do governo, a inclusão explícita de Gaza poderia ter estimulado uma adesão brasileira, o que não ocorreu.
Outro aspecto visto com ressalvas é a concentração de poder nas mãos do presidente norte-americano. A proposta prevê que alterações e decisões do Conselho dependam da aprovação do chefe do Executivo dos EUA, que também teria poder de veto sobre deliberações dos países-membros durante pelo menos três anos. A leitura no Planalto é de que esse desenho institucional enfraquece o caráter multilateral da iniciativa.
A tendência de rejeição ao convite foi externada publicamente pelo assessor especial da Presidência, Celso Amorim, em entrevista ao jornal O Globo, e confirmada por outros auxiliares do governo. Diplomatas avaliam que o formato do Conselho contraria princípios defendidos pelo Brasil na mediação de conflitos internacionais.
Nesta sexta-feira (23), durante evento em Salvador, Lula comparou a proposta de Trump à tentativa de criação de uma “nova ONU”. Segundo o presidente, há receio de sobreposição às atribuições das Nações Unidas e de enfraquecimento do sistema multilateral de segurança internacional. Lula afirmou ainda que tem buscado diálogo com outros líderes para evitar que a solução de conflitos seja substituída pelo uso da força.
Desde que recebeu o convite, no dia 16, Lula manteve conversas telefônicas com chefes de Estado como Xi Jinping, da China, Narendra Modi, da Índia, e Recep Tayyip Erdogan, da Turquia. De acordo com auxiliares, os contatos tiveram como objetivo trocar impressões sobre o cenário internacional e não articular uma resposta conjunta ao governo norte-americano.
O presidente brasileiro também falou com Mahmoud Abbas, líder da Autoridade Nacional Palestina, sobre a situação na região que inclui a Faixa de Gaza, palco do conflito entre Israel e o Hamas.
Segundo integrantes do Itamaraty, o Brasil segue reunindo informações adicionais sobre o funcionamento do Conselho e seu papel em conflitos específicos. Estão em curso análises jurídicas e consultas diplomáticas antes de uma resposta formal a Trump, ainda sem data definida.
No governo, não há preocupação imediata com eventuais retaliações dos Estados Unidos caso o Brasil decline do convite. A orientação, por ora, é acompanhar a reação dos demais países chamados a integrar o grupo — dos quais a maioria é classificada como regimes autoritários.
Trump já manifestou publicamente o desejo de contar com a participação de Lula no Conselho, inclusive no mesmo dia em que o presidente brasileiro criticou o norte-americano por tentar exercer liderança global por meio das redes sociais.







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